BRASÍLIA/MONTEVÍDEO, 10 de fevereiro – O Brasil está examinando um acordo comercial entre os Estados Unidos e a Argentina anunciado na semana passada devido a preocupações de que ele viole as regras do bloco comercial sul-americano Mercosul, disseram à Reuters três fontes com conhecimento direto do assunto.

Diplomatas brasileiros estão analisando documento divulgado por Washington na sexta-feira para determinar o alcance do acordo. À primeira vista, parece estar a ultrapassar os limites estabelecidos pelos Estados-membros do Mercosul em acordos bilaterais, disseram duas das fontes.

O Mercosul limita a medida em que os países membros podem concluir os seus próprios acordos comerciais com países terceiros para fortalecer o poder de negociação do bloco.

No ano passado, em meio a tensões comerciais globais desencadeadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, a Argentina procurou e conseguiu uma extensão temporária da isenção de tarifas externas comuns na região. O Brasil e a Argentina receberam 150 exceções cada, enquanto o Uruguai e o Paraguai receberam vagas maiores.

Questionado sobre o escrutínio do acordo pelo Brasil, uma autoridade argentina disse: “As reduções tarifárias anunciadas para produtos dos EUA estão incluídas na lista de 150 exceções às quais a Argentina tem direito”.

Mas autoridades brasileiras disseram à Reuters que o novo acordo entre os EUA e a Argentina parece incluir quase 200 itens.

“Para ser justo, estamos investigando o assunto com muito cuidado”, disse uma das pessoas.

Os governos do Brasil e do Uruguai não quiseram comentar.

Os ministérios das Relações Exteriores do Paraguai e da Argentina não responderam aos pedidos de comentários. O Departamento de Estado dos EUA não respondeu a um pedido de comentário.

Mercosul enfrenta tensões repetidas

Outra fonte disse que o acordo comercial bilateral pode envolver outras questões não tarifárias, como regras de origem para bens e serviços do Mercosul e barreiras técnicas.

A fonte disse que a decisão do presidente argentino, Javier Millei, um dos aliados mais próximos de Trump na região, de iniciar conversações unilaterais com os Estados Unidos dificultaria a obtenção de um acordo dentro das exceções do ano passado.

Questionado numa conferência de imprensa na sexta-feira se o Mercosul poderia interferir no acordo, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Argentina, Pablo Quirno, disse que o bloco comercial não impediria os Estados-membros de aderirem a tais acordos.

Ele disse que todo o acordo comercial e de investimento exigiria a aprovação parlamentar, mas Milley poderia implementar partes do acordo por decreto governamental.

Fundado há 35 anos, o Mercosul tem enfrentado repetidas tensões à medida que os países membros procuram expandir os seus laços comerciais por conta própria, mas nenhum país conseguiu até agora um acordo paralelo.

O Uruguai esteve perto de assinar um acordo de livre comércio com os Estados Unidos em 2006, mas desistiu, temendo ser expulso do bloco. Montevidéu também promove um TLC com a China, causando atritos com Argentina, Brasil e Paraguai.

Em 2019, no governo do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, o então ministro das Finanças, Paulo Guedes, ameaçou deixar o bloco, acusando-o de dificultar as ambições comerciais do Brasil.

Nem Bolsonaro nem o seu sucessor de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, tomaram quaisquer medidas formais para romper com o Mercosul.

Questionado sobre as possíveis consequências caso o acordo da Argentina vá além do permitido, uma autoridade brasileira disse: “Existem regras que devem ser seguidas”.

O responsável acrescentou: “Se isso realmente acontecer, precisaremos convocar o Conselho do Mercosul e o Conselho do Mercosul decidirá o que fazer”.

A próxima cúpula está marcada para o final de junho, em Assunção, quando o Paraguai entregará a presidência rotativa ao Uruguai.

Outra fonte em Brasília disse que a resposta teria de ser decidida nos mais altos níveis do governo brasileiro, mas o assunto ainda não havia sido levado ao primeiro-ministro Lula. Reuters

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