Entenda a colcha de retalhos criada para o debate sobre o CO. As conferências climáticas da ONU, conhecidas como COPs, são, na verdade, duas semanas de negociações intensas sobre cada palavra do acordo que define a política climática global. Em Belém, na COP30, quase 200 países reúnem-se novamente para discutir centenas de textos jurídicos que devem ser aprovados por unanimidade. As discussões acontecem a portas fechadas na chamada “Zona Azul”, espaço oficial de conferências reservado para delegações diplomáticas, agências da ONU e observadores credenciados. É aí que os negociadores passam horas debatendo cada verbo e cada parágrafo do documento. ‘Acordo extraordinário’: Presidente da COP30 celebra consenso sobre a agenda da conferência Desafio um: aprovar a agenda Antes mesmo de discutir o conteúdo, os países devem decidir o que estará na agenda. Na COP30, o presidente da conferência, embaixador André Correia do Lago, agradeceu aos delegados o “excelente acordo” que permitiu definir a agenda. Segundo os organizadores, a conferência começou na segunda-feira sem disputas sobre a inclusão ou exclusão de temas da agenda. Uma vez definida a agenda, os negociadores terão de lidar com uma série de projetos de texto, abrangendo tudo, desde metas nacionais de emissões até mecanismos de financiamento e adaptação. A especialista em política climática do Observatório do Clima, Stella Hershman, explica que a quantidade de texto em discussão durante uma COP é geralmente “na casa das centenas”, refletindo os vários níveis de complexidade e maturidade de cada questão. ➡️ Em entrevista à GlobeNews, a Diretora Executiva da COP30, Anna Toni disse que são 145 temas, 20 dos quais ela considera muito relevantes (veja entrevista abaixo). Anna Toni, diretora executiva da COP30, listou os principais destaques da agenda, já que cada um destes documentos precisa ser negociado linha por linha e aprovado por consenso entre cerca de 200 países – um processo detalhado e demorado, que geralmente se estende pelas duas semanas da conferência. O volume de tópicos reflecte o desafio de traduzir decisões políticas amplas, como a COP28 no Dubai, em normas operacionais concretas. Segundo Harchaman, o processo começa de forma ampla, quando os países apresentam suas posições e o que desejam ver no documento. A partir daí, os facilitadores preparam um memorando informal que combina todas as opiniões — muitas vezes conflitantes — e, pouco a pouco, ajustam o texto até que seja sugerida uma linguagem mais concreta. “Estas propostas permanecem entre parênteses até que o consenso na sala seja bom para todos. Quando há um texto claro, os países concordam em levá-lo ao plenário para ratificação. Na verdade, para publicar o texto é necessário consenso na sala – e, em plenário, em princípio, ninguém pode objetar”, explica. Isto tende a criar as chamadas “lutas de agenda” – as questões que serão formalmente discutidas. Por exemplo, na COP30, houve uma disputa sobre questões como o financiamento climático (artigo 9.1) e regimes comerciais unilaterais, que alguns países consideram como barreiras impostas pelos países ricos, como o sistema de ajustamento do carbono da UE. Segundo Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, a lição final poderia seguir dois caminhos. “Eles podem vir de grupos de contato – grupos de discussão formados por países para discutir um assunto específico. Esses grupos finalizam uma resolução e enviam o texto ao presidente da conferência, que faz o anúncio final e submete o documento à aprovação do plenário”, explica. Mas há exceções, observa o especialista do Observatório do Clima: “Houve casos em que alguém levantou a mão no plenário e tentou fazer uma alteração de última hora, dizendo que algo mudou. “Isso acontece quando não há acordo suficiente para encaminhar o texto ao plenário. O tempo esgota-se, o consenso não é alcançado e então a Regra 16 se aplica – ou seja, o assunto volta para a próxima conferência”, elaborou. Segundo Stella, na prática, quase se reinicia a discussão do zero. “Normalmente, as partes são ouvidas novamente e uma nova primeira versão do texto é criada. Mas também há uma certa flexibilidade: às vezes, os países decidem voltar para a última versão trabalhada e tentar avançar a partir daí, para não perder tudo o que já foi criado. Diferentes versões do texto A fase do texto começa após o tema estar em pauta. Cada documento passa por diferentes etapas: Sem Texto: Quando não há contrato ou minuta. Texto Informal: Primeira edição com localização do país, mas sem linguagem jurídica. Texto Inicial (Rascunho): Começa a ter um marco legal, mas ainda está cheio de colchetes ( ) e “opções”, indicando discordância. Texto Limpo: Quando todos os parênteses e opções são removidos e há consenso. Existem também as chamadas “decisões de cobertura”, escritas diretamente pela Presidência da COP após uma série de consultas. “A presidência escreve o que entende ser o consenso geral – o que teve mais apoio ou o que a maioria concordou. Esse tipo de texto gera mais debate e até ressentimento, porque não é produzido coletivamente pelos países que tratam do assunto, mas pela interpretação política do presidente”, disse. Essa fase geralmente ocorre nos últimos dias da conferência, quando as discussões são intensas. Rascunhos são versões intermediárias de textos, produzidos à medida que as discussões avançam. Cada nova edição tenta resolver alguns pontos em aberto e deixa outros entre parênteses – sinal de que ainda não há consenso. Nos momentos finais, é comum que surjam vários rascunhos sobre o mesmo tema, refletindo negociações e esforços de idas e vindas para chegar a um texto final aceitável para todos os países. Como se chega ao consenso Dia após dia, os negociadores tentam criar “textos de ligação” para aproximar as posições e encontrar um “ponto de aterragem” (zona de aterragem) – um meio-termo aceitável para todos. Se houver acordo, o item fica “verde” no relatório de auditoria; Se não houver consenso, poderá ser adiado para a próxima COP, ao abrigo da chamada Regra 16 da Convenção do Clima. Momento da adoção Quando o texto final é preparado, ele é convertido em “decisão provisória” (projeto de decisão) e enviado ao plenário de encerramento. É o presidente da COP quem dá o martelo final — literalmente — para adotar o documento como decisão oficial da conferência. Geralmente isso é uma formalidade, mas há exceções. Por exemplo, na COP29, o presidente da conferência não conseguiu aprovar um acordo sobre uma “avaliação global” que tratasse da “transição” dos combustíveis fósseis.

Source link