A obra de Ne Matogrosso vira manifesto estético e político no enredo do samba da Imperatriz Leopoldinense, que desfila neste domingo (15) no Grupo Especial do Carnaval do Rio, uma verdadeira homenagem à obra e à trajetória de Ne Matogrosso. Intitulado “Camelenico”, o enredo criado pelo carnavalesco Leandro Vieira percorre os diversos palcos musicais do cantor e utiliza expressões que fazem referência direta a canções famosas de seu repertório, além de imagens que remetem à sua estética física, teatral e transgressora. Asas, fantasias e metáforas durante o desfile remetem à especialidade e ao sucesso do artista. Combinando títulos, versos e símbolos do repertório da cantora, Imperatrice Leopoldinense também apresenta um samba-enredo em seu enquadramento carnavalesco que serve de narrativa para clássicos e discos notáveis ​​da cantora. 1º Ensaio Técnico de Imperatriz Leandro Vieira na Sapucai Nelson Malfaccini/Divulgação O Enredo de Imperatriz Leandro Vieira destaca que o enredo de Imperatriz nunca teve a intenção de ser uma biografia, mas sim um enredo baseado em um monólogo. O carnavalesco cita quatro discos do artista como referências para seu projeto: “Água do Seu-Pasaro”, “Bandido”, “Fetico” e “Pecado”. “Se você imaginar esses quatro discos depois de Secos e Molhados, ele já se apresenta como uma criatura que inaugura a performance, a androginia. Esses discos já mostram o poder e a inteligência para entender que a estética é um discurso muito poderoso”, revela. Samba da Imperatriz faz referência ao álbum Água do Céu- Pássaro, divulgação/site Ney Matogrosso de 1975. Leia mais: Imperatriz investirá em símbolos de ‘vocabulário visual’ que misturam masculino e feminino, isso também ficará evidente nos figurinos, matrosobgy de caráter bastante neguinista. “Quando apresento o homem com H, esse homem com H é uma asa masculina que mistura signos do imaginário feminino. Por quê? Porque a música em si é uma zombaria, né? Ney gravou como uma zombaria. Eu uso essa ideia de caricatura de masculinidade para representar uma fantasia. É um homem com um peixe noturno e explica.” Asas e figurinos mostrarão a versatilidade e o poder estético de Ne Matogrosso (foto do 1º ensaio técnico de Imperatrice) Nelson Malfaccini/Divulgação Entenda as referências do samba-enredo na seção “Pois, sou Homem com H”, a maior carreira de interpretação do samba, lançada em 1981. A canção se torna um hino de afirmação e liberdade de expressão e dialoga com um tom de trama, que eleva o gênero de quebra. Outra referência óbvia se encontra em “O sangue latino que vira/vira, vira lobo de guerra”, verso que remete às músicas “Sangu Latino” e “Vira” da época do grupo Secos e Molhados. A letra original fala de transformação e iniciação, elementos que se conectam à ideia de camaleonismo presente na trama. O samba também faz alusão ao “Pavão Mysterioso”, sucesso popular de Ney, utilizando o verso “Pavão de mistério, rebelde, catico”. A imagem do pavão simboliza exibicionismo, sedução e teatralidade. Em “A voz que deu nome à Rosa Quente”, há referência a “Rosa de Hiroshima”, poema de Vinicius de Moraes musicado por Gerson Conrad e imortalizado por Ne Matogrosso. A música se tornou uma das interpretações mais icônicas da cantora, conhecida por acusações dramáticas e críticas à violência e destruição. O verso “O poder de Atenas que não consome o mal” cita diretamente a canção “A Mulher de Atenas”, vinculando a imagem mítica a ideias de resistência e força. Em “Não Vejo Pecado ao Sul do Equador”, o samba remete à canção de Chico Buer e Rui Guerra que ganhou reconhecimento nacional na interpretação de Não dos últimos anos da ditadura militar. A música foi identificada como um símbolo de liberdade física e desafio moral. Divulgação do Álbum Bandido/Site Ne Matogroso Outras imagens evocadas pelo diálogo do samba com personagens e temas recorrentes no repertório do cantor, como “Bandido, Sin Espegal”, referem-se a três discos lançados em 1976, 1977 e 1978 respectivamente. Álbum Feitiço Divulgação/site Ney Matogrosso O trecho “Pássaro, Mulher” recupera a ideia de hibridismo e animalidade presente desde 1975 tanto na estética do artista quanto no álbum “Água do Siu-Pásaro”. O verso “Atuo como conceito e síntese de um poema” dialoga com a música “Poesia”, que reforça o papel de Ne Matogrosso como artista que enfrentou censura, conservadorismo e normas de gênero ao longo de uma carreira de cinco décadas. Veja o álbum Pecado Divulgação/Site Ney Matogrosso samba-enredo 2026: Camaleão Vem meu amor vamos viver a vida deixa ferver o dia de nascer feliz em Leopoldina Sou meio humana, meio animal silêncio e pássaro chorão, mulher que desenha a verdade e nunca toca na cara. Visível, indeterminado Frágil resigna o que confunde O que falta que desafia a facilidade Canto com alma de mulher Arte que sabe o que quer e não esquece: Sou a poesia que desafia o sistema A língua no ouvido de quem censura Quem censura pela totalidade Sou um homem com H, E sou um rebelde como Pelco e Pelco O bagre a voz que deu nome à rosa O poder de Atena que não engole o mal O Sangue latino que acaba virando lobisomem

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