RIO DE JANEIRO – No dia 28 de outubro, Douglas da Silva voltava para casa, para seu apartamento, na zona norte do Rio de Janeiro, após entregar uma entrega de comida, quando ouviu tiros ao longe.
Centenas de policiais de elite do Rio invadiram um complexo de favelas a cerca de um quilômetro e meio de distância, caçando membros da gangue Comando Vermelho. Naquela noite, ainda havia tiros na colina arborizada acima do prédio fechado.
Silva, 30 anos, voltava para casa em um sedã Hyundai branco quando um policial motociclista que vigiava o local ordenou que ele parasse.
Há um debate sobre o que aconteceu a seguir.
Segundo o boletim de ocorrência, Silva recusou-se a parar quando recebeu ordem, fugiu e atirou contra eles com um revólver, que posteriormente entregou. A família de Silva afirma que ele não tinha arma de fogo, não tinha ligações criminosas e não tinha motivos para resistir à polícia.
Um vídeo de testemunha analisado pela Reuters mostra a polícia gritando para Silva sair de seu carro, que estava estacionado na calçada do portão da frente do prédio.
Mais tarde, depois que a polícia disparou através dos vidros escuros do veículo, Silva abriu a porta, saiu cambaleando e sentou-se no chão, com sangue escorrendo da bochecha direita.
“Oh meu Deus, o que eles fizeram aqui? Oh meu Deus”, exclamou uma mulher não identificada, com a voz trêmula. “Alguém chame uma ambulância”, disse a voz de outra mulher.
A Reuters localizou o vídeo usando sinais de trânsito, mapas de estradas, semáforos, postes de serviços públicos e fachadas de edifícios, e confirmou a data em relatórios de apoio.
A polícia do Rio se recusou a comentar os detalhes do incidente, mas anunciou na semana passada que havia aberto uma investigação sobre o incidente. Três semanas após o tiroteio, Silva permanece internado em estado estável. A operação policial de 28 de outubro deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais, uma entre centenas de vítimas, a mais mortal da história do Brasil.
O governador do estado do Rio, Claudio Castro, classificou o ataque como um “sucesso” e disse que as únicas “vítimas” do ataque foram os quatro policiais mortos e seus colegas feridos. Autoridades disseram que outros mortos ou gravemente feridos no ataque eram membros de gangues.
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que a investigação policial do estado do Rio teve “resultados desastrosos” e prometeu pressionar por uma investigação independente solicitada por especialistas em direitos humanos das Nações Unidas.
“Estou lutando pela minha vida”
A família de Silva afirma que ele foi vítima inocente de excesso de policiamento.
“Meu marido está lutando por sua vida neste momento. Estamos lutando para provar sua inocência”, disse Karine Ferreira dos Santos, 30 anos, esposa de Silva e sócia em uma empresa de entrega de sanduíches e sucos.
Diversos relatos do tiroteio presenciados por vizinhos e parentes, que registraram partes do incidente e suas consequências em seus celulares, destacam o desafio de juntar as peças do que aconteceu naquele dia sangrento no Rio.
O vizinho Hugo Silva, 31 anos, advogado criminalista e sem parentesco com a vítima, começou a filmar da janela de seu apartamento após ouvir os tiros.
Ele disse que ouviu apenas o som de uma arma de fogo de calibre único e não o disparo de um revólver seguido de disparos pesados de rifle, disse um policial em um relatório do incidente obtido pela Reuters.
“Não houve tiroteio”, disse ele. A Reuters não conseguiu verificar sua conta de forma independente.
Dos 40 vídeos de espectadores analisados pela Reuters, 20 mostraram a polícia revistando o carro branco de Silva, com os vidros escuros enrolados, que seu advogado citou para argumentar que não havia nenhuma maneira de seu cliente ter atirado contra os policiais.
Os vídeos e relatos de testemunhas analisados pela Reuters não incluíam o revólver que a polícia diz ter sido roubado de Silva. O vídeo mostrou a polícia rebocando o carro. Testemunhas disseram que nenhum investigador forense chegou ao local.
Incidentes como o de Silva não são incomuns em um país onde uma média de 17 pessoas são mortas pela polícia todos os dias, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o que é cerca de cinco vezes o número de mortos pela polícia nos Estados Unidos.
Uma análise da Reuters aos nomes das pessoas mortas pela polícia nas operações do mês passado revelou que 117 dos mortos não estavam entre os 69 suspeitos citados pelos promotores na denúncia que serviu de base para as operações. Silva também não estava na lista.
pai e empresário
Outro vizinho, que pediu anonimato, disse que Silva era um empresário trabalhador. Há cinco anos, ele e a esposa juntaram dinheiro para se mudarem com a família de uma favela próxima, refugiando-se num complexo de apartamentos contra a violência futura.
“Meu marido não tem nada a ver com a cirurgia. Trabalhamos muito para morar em um apartamento fora daquela comunidade”, disse Santos.
Ela disse que tem lutado nos últimos dias para reunir evidências que comprovem a inocência e o caráter de seu marido, incluindo documentos da empresa e depoimentos de clientes, enquanto cuida de seus filhos de 5 e 9 anos.
Santos apresentou queixa policial contra os policiais que atiraram em seu marido, acusando-os de ferimentos por arma de fogo e falsas acusações, informou a Reuters.
Santos e seu marido, a advogada Jill Santiago, acusaram a polícia de saquear o local e plantar armas para incriminar Silva.
“A polícia deveria tê-lo resgatado e preservado a cena para análise forense”, disse ele.
Questionado sobre as denúncias da família de Silva, um porta-voz da polícia disse que os detetives e a Superintendência estavam investigando o incidente.
Santos disse que não conseguia explicar aos filhos o que aconteceu.
Ela se lembra de seu filho de 5 anos perguntando: “Mãe, por que atiraram no meu pai? Tudo o que tive que fazer foi dizer-lhes para pararem”.
“Não estamos seguros em lugar nenhum”, disse ela. Reuters


















