Na Uerj, foram estudados 116 pacientes com esclerose múltipla. A ideia era explicar por que um medicamento prescrito para uma doença pode funcionar muito bem para algumas pessoas, ter pouco efeito em outras ou até mesmo ter efeitos indesejados. A esclerose múltipla Freepik é uma doença autoimune crônica do sistema nervoso central, que afeta o cérebro e a medula espinhal. No Brasil, estima-se que cerca de 15 pessoas vivam com a doença para cada 100 mil habitantes. Ocorre quando o próprio sistema imunológico começa a atacar a estrutura do sistema nervoso, causando inflamação e lesões que perturbam a comunicação entre os neurônios. Os sintomas variam muito de pessoa para pessoa. Estes incluem alterações na visão, fraqueza muscular, problemas de equilíbrio, fadiga severa e dificuldades cognitivas, como défices de memória e atenção. Embora existam tratamentos eficazes, nem todos os pacientes respondem da mesma forma aos medicamentos disponíveis. Veja também: Diagnóstico de esclerose múltipla mais comum em mulheres Por que os remédios não funcionam da mesma forma para todos? A esclerose múltipla é uma doença clinicamente incurável e os tratamentos atuais concentram-se na redução da atividade das lesões detectadas pela ressonância magnética, reduzindo a frequência das crises e prevenindo o desenvolvimento de neurodegeneração. Os tratamentos são chamados de terapias modificadoras da doença (DMT). Eles atuam modulando a resposta imunológica para conter a progressão da inflamação. Hoje, existem diversas opções de tratamento para esta doença, sendo o natalizumabe o mais utilizado. Apesar de sua alta eficácia, a resposta a este medicamento pode variar entre os pacientes. Enquanto alguns conseguem um excelente controle da doença, outros apresentam crises, agravamento dos sintomas e dificuldade nas atividades diárias, mesmo com tratamento adequado. Compreender por que essa diferença ocorre é um dos grandes desafios da pesquisa atual. E foi exatamente essa pergunta que inspirou a pesquisa que desenvolvemos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). O papel da genética na resposta ao tratamento Nosso estudo investigou se essas diferenças na resposta poderiam estar relacionadas à genética. Cada pessoa tem pequenas variações em seu DNA que podem afetar a forma como um medicamento é absorvido, distribuído, metabolizado e como ele interage com o sistema imunológico ou com seu alvo terapêutico. O campo que estuda essas diferenças é denominado farmacogenética. Procura explicar por que um mesmo medicamento pode funcionar muito bem para algumas pessoas, ter pouco efeito em outras ou até causar efeitos indesejados. Essa abordagem faz parte da chamada medicina de precisão, que oferece um tratamento mais personalizado. Levam em consideração as características individuais de cada paciente, e não apenas a média populacional. ‘Pare e ouça você mesmo’, diz modelo Carol Ribeiro após revelar diagnóstico de esclerose múltipla Distinguido por equipe multidisciplinar O estudo foi realizado no Laboratório de Neurofarmacogenética da Uerj por uma equipe multidisciplinar formada por neurologistas, farmacêuticos, biomédicos e estudantes da área da saúde. Esta diversidade de formação foi essencial para integrar a prática clínica, a investigação experimental e a análise genética de forma consistente e translacional. O estudo é resultado da dissertação de mestrado da aluna Rafaela Cardoso, desenvolvida no programa de pós-graduação em fisiopatologia clínica e experimental da Uerj. A autoria compartilhada, com o aluno Matthews Matos, reflete o caráter colaborativo do trabalho e o compromisso com a formação de novos cientistas. A pesquisa também se destaca pelo caráter multiinstitucional, desenvolvida em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Leia mais: Polilaminina: O que se sabe sobre a proteína da UFRJ que pode restaurar o movimento após lesão medular Cientistas brasileiros usaram proteínas placentárias para restaurar o movimento em cães e humanos cujos pacientes com lesão medular foram acompanhados em dois importantes hospitais universitários do Rio de Janeiro: Hospital Universitário Universidade Pedro (UFRJ). Esses hospitais são centros de referência no atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), o que confere a este estudo grande relevância social. Os dados analisados ​​refletem a realidade da população brasileira atendida nas redes públicas, aspecto ainda pouco representado nos estudos genéticos internacionais. Os pacientes observados nesses ambulatórios foram convidados a participar do estudo voluntariamente. Os que aceitaram realizaram apenas coleta simples de sangue periférico (4 ml), realizada durante atendimento de rotina hospitalar. Amostras de sangue foram enviadas ao laboratório, onde analisamos moléculas relacionadas ao funcionamento do sistema imunológico. Além disso, realizamos extração e genotipagem de DNA, procedimento que permite identificar pequenas variações genéticas capazes de influenciar a forma como cada paciente responde à medicação. Achados Neste estudo, analisamos duas variantes genéticas, polimorfismos nos genes que codificam os receptores Fc-gama (FCGR2A e FCGR3A), estruturas importantes na resposta imune e na interação entre anticorpos e células do sistema imunológico. Avaliamos 116 pacientes brasileiros com esclerose múltipla em uso de natalizumabe e mostramos que certas combinações genéticas, como o genótipo AG em FCGR2A e AC em FCGR3A, estão associadas a um menor risco de falha terapêutica. Por outro lado, outros perfis genéticos são mais frequentes em pacientes que não respondem adequadamente ao tratamento. Observamos também que essas variações estão associadas a diferenças nos níveis de moléculas inflamatórias no sangue, sugerindo mecanismos biológicos que ajudam a explicar essas respostas distintas. É importante ressaltar que a genética não funciona de forma isolada. Fatores clínicos, características individuais, influências ambientais e processos epigenéticos também desempenham papéis importantes. Nosso estudo mostra que a genética é uma peça relevante do quebra-cabeça, mas não a única. Os resultados deste trabalho foram publicados na revista científica internacional Multiple Sclerosis and Related Disorders. Como o investimento público impulsiona um marco na ciência nacional A pesquisa só foi possível graças ao apoio das principais agências de fomento à ciência do Brasil, como Faperj, Capes e CNPq. Esses recursos foram essenciais para a formação de profissionais qualificados, a realização de experimentos, a análise de dados e a divulgação de resultados. O investimento público em ciência é essencial para o avanço do conhecimento e o fortalecimento do SUS. Este é o primeiro estudo farmacogenético em esclerose múltipla realizado no Brasil, representando um marco importante para a pesquisa nacional. O trabalho destaca o pioneirismo do grupo Uerj na aplicação da medicina de precisão em uma doença neurológica complexa e reforça a importância de considerar a diversidade genética da população brasileira. Próximos passos A pesquisa não termina aqui. Nosso grupo continua buscando outras variantes genéticas que possam afetar a resposta ao natalizumabe e desenvolvendo modelos animais para melhor compreender os mecanismos biológicos envolvidos. No futuro, estes avanços não só ajudarão a prever quem responderá melhor ao tratamento, mas também ajustarão as dosagens e as estratégias terapêuticas de uma forma mais personalizada, aproximando a ciência dos cuidados reais ao paciente. *Fabricia Lima Fontes-Dantas é professora titular de Farmacologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ). **Este artigo foi publicado originalmente no site The Conversation Brasil.

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