euAloe de Almeida é uma fotógrafa documental radicada em São Paulo, Brasil. Seu ensaio fotográfico em 2021 Pantanal ardente Premiado com o primeiro lugar na categoria Histórias Ambientais no World Press Photo Contest. Em 2022, ele ganhou o Eugene Smith Grant em Fotografia Humanitária e o Prêmio de Projeto de Longo Prazo da World Press Photo por seu trabalho. Distopia amazônicaQue documenta a exploração da maior floresta tropical do mundo.
Fotografo questões socioambientais há mais de 30 anos, principalmente na Amazônia. 2020 não foi diferente. As notícias da devastação causada pelos incêndios descontrolados no Pantanal começaram a chamar minha atenção. Então, junto com um colega jornalista, decidi ir e ver pessoalmente o que estava acontecendo.
Foi um choque quando chegamos a esta área. O fogo estava fora de controle e quase não houve combate a incêndios. Já tinha visto muitos incêndios na Amazônia, mas nada comparado a isso. O mais triste foi ver a quantidade de animais mortos pelo fogo. Pior ainda foi a situação dos animais feridos, queimados e órfãos. 2020 foi uma tragédia. Nesse mesmo ano, voltei mais três vezes para monitorar as queimadas no Pantanal. E desde então, continuei a voltar a fotografar esta área.
Estávamos indo para uma fazenda na zona rural de Aquidoana, onde bombeiros e brigadistas combatiam um grande incêndio. No caminho começamos a ver diversas colunas de fumaça no horizonte. Parei para tirar foto de uma pequena fogueira perto da Fazenda Paraíso. Em poucos minutos, alimentado pelo vento, o fogo ganhou força e velocidade, criando uma coluna de fumaça que se estendeu por quilômetros. Tivemos que sair rapidamente para não sermos pegos pelo fogo.
O calor insuportável, o barulho da vegetação queimada, a fumaça sufocante, tudo coberto de luz laranja, é um espetáculo que jamais esquecerei. Destruição pura.
A BR-262, principal via que atravessa a zona sul do Pantanal, foi atingida por diversos incêndios em 2020. Cercados por queimadas por todos os lados, muitos animais buscaram abrigo nas águas de pequenas lagoas localizadas à beira da estrada.
No dia em que esta foto foi tirada, vimos dezenas de cervos do pântano (blastoceras dicotômicas) Nestas pequenas lagoas, uma visão inimaginável em tempos normais. Geralmente tímido em conhecer pessoas, o cervo parecia atordoado, indiferente à nossa presença, sem outra opção a não ser sobreviver.
Quando chegamos ao Pantanal para cobrir os incêndios de 2020, ficamos chocados. O hotel, que servia de base para bombeiros e brigadistas, estava em chamas e estava sendo evacuado. Apesar dos avisos sobre as condições do incêndio, não houve resposta organizada e o Pantanal foi abandonado à própria sorte. Foram milhares de incêndios espalhados pelo bioma.
Um dia, enquanto viajava pela rodovia Transpentaneira, notei um bombeiro solitário que observava uma ponte de madeira pegar fogo sem reagir. Ele me disse em tom decepcionado: “Aqui não tem mais o que fazer. O fogo no Pantanal só vai apagar quando chover ou quando tudo pegar fogo. O que ocorrer primeiro.” E ele estava certo. O fogo só parou quando choveu.
Em agosto de 2024, o Pantanal voltou a arder violentamente. Minha ideia era chegar ao local onde começou o incêndio, na região de Nekolandia. A meio do caminho começámos a ver os primeiros sinais de fogo. A fumaça da deriva estava ficando mais espessa à medida que seguíamos pela estrada arenosa, então paramos em um retiro na Fazenda Paraíso para obter informações e saber se conseguiríamos continuar. Os arbustos altos ao redor da casa queimavam lentamente, mas ainda a uma distância segura.
No entanto, em poucos minutos, o vento aumentou e o que era uma pequena mancha de fogo transformou-se numa espessa parede de chamas e fumaça. O calor das chamas o estava afetando ainda mais, arrastando-o pelas florestas, destruindo tudo que estava à vista. O calor, a fumaça, o ar alaranjado e o som das árvores queimando criaram essa atmosfera infernal. Ver o fogo de perto assim é uma experiência assustadora. Naquela noite, quando deitei a cabeça no travesseiro, não conseguia parar de pensar naquela cena.
A Rodovia Transpantaneira é uma estrada parque localizada no norte do Pantanal, e é provavelmente uma das melhores brasil Para ver a vida selvagem. Durante os incêndios de 2020, era comum encontrar animais mortos e carbonizados às margens das estradas, principalmente crocodilos, cobras e tartarugas, que têm mais dificuldade de locomoção.
Mas o mais triste e chocante foi encontrar sobreviventes. Feridos ou não, os animais pareciam zumbis, completamente perdidos, sem saber para onde ir em meio à fumaça. Era comum ver crocodilos, quatis, tatus, macacos e veados vagando sem rumo pela estrada, fugindo do fogo ou em busca de fonte de água em meio à forte seca.
Ao fotografar um incêndio em uma área isolada da Serra do Amolar, próximo a Corumbá, tive a oportunidade de participar do trabalho do Corpo de Bombeiros do Prevfogo, do órgão ambiental federal, Ibama. Eles são a mão de obra mais qualificada para combater incêndios florestais no Brasil. O grupo, formado por agricultores piauienses, percorreu milhares de quilômetros de carro para ajudar no combate aos incêndios no Pantanal.
A resiliência e o comprometimento dessas pessoas foram impressionantes. Trabalhavam 12 horas por dia, sob um sol de 40 graus, em meio a fogo e fumaça, arriscando a vida. Embora eu só pudesse fotografar algumas horas nessas condições, ele passou o dia inteiro lá. Ele é o herói desconhecido. Estar com esses bombeiros e observá-los trabalhar foi a única coisa que me deixou otimista durante os incêndios de 2020.
Em 2024 voltei para Santa Teresa. Eu sabia que havia muitos incêndios nos campos, mas não sabia que seria 2020 novamente. O fogo se espalhou rapidamente e, como antes, vi uma grande quantidade de animais mortos: antas, macacos, pássaros. A princípio pensei que os incêndios de 2020 foram um acidente estranho.
Mas vendo tudo de novo pessoalmente, me perguntei se talvez essa fosse a nova realidade do Pantanal. O novo normal. O bioma é altamente resiliente, mas com essas tragédias se repetindo em intervalos tão curtos, juntamente com incêndios florestais intensos e frequentes devido à escassez de água e à seca, não teve tempo de se recuperar.
O pior é que, embora as pessoas estejam mais bem preparadas e mais conscientes do que está acontecendo no Pantanal, os incêndios ainda não foram controlados. Foi de partir o coração ver tudo isso de perto; Uma verificação da realidade.
A realidade do Pantanal é um exemplo muito instrutivo dos efeitos das ações humanas na Terra. Gostaria que os espectadores que vissem minhas fotografias não vissem isso como algo distante que está acontecendo do outro lado do mundo. Estamos todos conectados neste planeta.
Água Pantanal Fogo, apresentando o trabalho de Lalo de Almeida e Luciano CandisaniEm exibição no Science Museum, Londres, de 6 de fevereiro a 31 de maio.


















