Documentos mostram mudanças nos critérios de revisão das redações do Enem 2025 Após ser revelado pelo g1 que as redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 foram revisadas com base em “regras” diferentes das edições anteriores, surge a seguinte questão: O que, de fato, mudou em cada uma das 5 competências avaliadas? Veja abaixo. Embora o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) negue oficialmente qualquer alteração nos parâmetros de avaliação (leia mais ao final do relatório), os documentos enviados aos corretores mostram que em 2025 houve três diferenças principais, em relação aos anos anteriores: regra 4 mais aberta e menos detalhada em termos de competências, elementos como “formas de usar a cooperação”. Maior penalização na qualificação “consequência” 5, maior ponderação dada ao repertório sociocultural (com penalização em duas competências) para candidatos que redigem propostas de intervenção sem componente “ação” Segundo professores e revisores entrevistados no relatório, estas orientações tornam as revisões mais rigorosas – o que explica porque os candidatos podem sempre obter pontuações mais elevadas em algumas disciplinas. 700 permanecem no nível de 900 pontos. Guilherme*, de 23 anos, por exemplo, nunca tirou nota abaixo de 900. Na redação do Enem 2025, obteve apenas 740 pontos. “Não uso modelo de texto pronto. Não aprendi a escrever no dia da prova, também não fiquei nervoso. O Enem virou uma grande bagunça”, diz. ➡️ Veja abaixo o que mudou (cada habilidade recebe 200 pontos, 1.000 no total): Habilidade 1: Domínio de Padrões Nesta área, que avalia o uso de estruturas gramaticais e sintáticas, não houve mudanças formais. Em 2024, os candidatos poderão receber nota máxima com dois desvios gramaticais, desde que a composição do texto seja considerada excelente. Em 2025, os critérios descritos na grelha permaneceram os mesmos. Competência 2: Compreender a Proposta e Aplicar Conceitos Em 2024, a redação deverá apresentar com clareza as três partes de um texto argumentativo – introdução, desenvolvimento e conclusão – além de abordar o tema na íntegra, com contextualização sociocultural relevante. A grelha revista, que estabelece os critérios detalhados que devem ser seguidos pelo painel, não sofreu alterações em 2025 neste aspecto: os candidatos deverão referir-se a autores, livros ou filmes, por exemplo, para fundamentar os seus argumentos. Citações genéricas, sem o devido contexto (“repertório de bolso”), não serão consideradas válidas. Essa luta contra o “modelo pronto” de redação foi claramente comunicada no manual do candidato em setembro de 2025, dois meses antes do Enem. Os requisitos para a habilidade 2 eram, portanto, os mesmos — mas os erros nesta parte também começaram a interferir na pontuação da habilidade 3 (veja abaixo). Competência 3: Seleção e organização da informação ➡️Um documento adicional enviado por e-mail aos corretores após o treinamento individual, deverá abordar essa competência 2 de 3. Ou seja, os dados socioculturais avaliados negativamente pelo painel passaram a ser penalizados em dois méritos, e não em um. Segundo professores entrevistados para a reportagem, essa foi a principal explicação para a queda inesperada nas notas de tantos alunos. Trecho de documento confidencial que estabelece ligação entre as duas habilidades Arquivo Pessoal Habilidade 4: Processos Linguísticos Em 2024, a pontuação máxima nesta habilidade segue critérios matemáticos claros: o candidato deve utilizar operadores lógicos entre parágrafos em pelo menos dois momentos e apresentar pelo menos uma parte coerente dentro de cada parágrafo. Em 2025, esse cálculo foi retirado do quadro resumo. Em vez de parâmetros numéricos, passaram a ser utilizadas classificações mais subjetivas, como presença “regular”, “constante” ou “inexplicável” de elementos integrados. Para os professores, a mudança eliminou a referência exata usada pelos corretores. 2024: Competência 2 – Critérios do Enem 2024 Arquivo pessoal 2025: Competência 4 – Regras do Enem 2025 Arquivo pessoal Competência 5: Proposta de intervenção Cabe ao aluno, ao redigir o Enem, sempre desenvolver uma alternativa que resolva o problema apresentado no texto. Poderia ser uma política pública organizada por um ministério ou uma campanha de conscientização promovida pela imprensa, por exemplo. 5 itens são obrigatórios: ação (o que deve ser feito?); agente (por quem?); finalidade (com que finalidade?); Significado (de que forma?) e detalhes dos conceitos. Como nos anos anteriores, a omissão de 1 em 5 elementos resultará na perda de 40 pontos. Mas em 2025 uma nota de rodapé adicionou novas diretrizes: Qualquer aluno que esquecesse especificamente um item de “ação” enfrentaria uma penalidade de no máximo 120 pontos. “Tem aluno que esquece de colocar ‘Ação’ de uma forma que parece definitiva. Com isso perde mais pontos do que pensava. O Inep ainda chega e diz que não tem troco?”, questiona um corretor*. Exemplo de palavra Enem 2025 que recebeu punição maior por não incluir o elemento ‘ação’ Arquivo pessoal O Inep confirmou que não houve alteração “Não há alteração nos critérios de correção. São a mesma corretora e a mesma instituição solicitante (Sebraspe). A equipe formadora veio do Inep e usou os mesmos critérios”, disse Manuel Palacio, presidente do 1º de janeiro, Manuel Inep. Em nota, o Ministério da Educação (MEC) disse ainda que as provas são revisadas por pelo menos dois avaliadores, com previsão de terceira alteração em caso de segregação, “para garantir equilíbrio, justiça e igualdade de tratamento a todos os participantes”. Por que uma mudança sem contato é problemática? De forma inédita, o Sistema de Seleção Unificada (SiSU) passou a aceitar notas das três últimas edições do Enem (2023, 2024 e 2025) na classificação de estudantes de universidades públicas em 2026. Ou seja: aqueles que “estrearam” a prova e só conseguiram concorrer ao concurso de 2020. Experiente, presumivelmente avaliado com menos rigidez. “É como comparar uma maçã com uma banana. A revisão de 2025 foi mais rigorosa e subjetiva do que a do ano anterior”, disse Sergio Paganim, coordenador editorial do AngloCourse. Luana*, de 24 anos, passou de 920 (2023) e 940 (2024) para… 720 (2025). “Isso não representa uma evolução negativa, mas sim uma instabilidade no processo de avaliação”, afirma. Gabriel Gaspar, por exemplo, na Universidade de São Paulo (USP), foi admitido em medicina por meio de vestibular próprio da instituição (FUVEST). “Eu larguei o Sisou depois que minha nota na redação do Enem caiu de 900 para mais de 700. Eu não sabia de nenhuma dessas mudanças. Se eu tivesse contado com essa prova, teria perdido mais um ano de preparação”, afirma. R$ 3 por texto editado Mudanças atrasadas e inconsistentes contribuem para o relatório de situação do trabalho dos editores: eles costumam ganhar cerca de R$ 3 por cada dissertação editada. Eles leem 200 textos no mesmo dia, com instabilidade do sistema e dificuldade de comunicação com seus supervisores. “Em um treinamento presencial, a gente dizia: ‘Ah, isso vai mudar’. Outra pessoa, de outra sala, respondia: ‘Ei, meu supervisor não falou isso’. Houve muito ruído de comunicação durante o treinamento”, conta a corretora Geralda*. Esta incerteza contribui para a alienação de mão de obra qualificada. O g1 entrou em contato com o Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e Promoção de Eventos (CEBRASPE), que substituiu a Fundação Getulio Vargas (FGV) e é responsável pela revisão dos artigos desde 2023. Em resposta, a empresa disse que apenas o Enep pode comentar o Enem. O Inep, por sua vez, não respondeu às perguntas sobre remuneração e carga horária dos profissionais. *Nomes dos entrevistados omitidos a seu pedido. Os editores do Enem assinam um termo de confidencialidade sobre o trabalho que realizam. ENEM 2025 – domingo (16) – RIBEIRÃO PRETO (SP) – Cartilha laranja do exame do 2º dia de prova Érico Andrade/g1

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