RIO DE JANEIRO (Reuters) – Os delegados europeus na cúpula do G20 no Brasil ficaram insatisfeitos com a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de encerrar as negociações e emitir a declaração final do grupo um dia antes para reduzir a discussão espinhosa sobre a guerra na Ucrânia, disseram fontes.

O chanceler alemão, Olaf Scholz, disse na terça-feira que lamentava que o comunicado do G20 não sublinhasse a responsabilidade da Rússia no início da guerra na Ucrânia, especialmente no milésimo dia da sua invasão em grande escala.

“É muito pouco quando o G20 não consegue encontrar palavras para deixar claro que a Rússia é responsável”, disse ele no final da cimeira de dois dias do Grupo das 20 principais economias, no Rio de Janeiro.

As palavras sobre a Ucrânia têm sido espinhosas nas reuniões do G20 desde o início da guerra, porque a Rússia e os seus aliados estão sentados à mesa. O presidente russo, Vladimir Putin, não compareceu à cimeira do Rio, mas foi representado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov.

O comunicado geralmente é divulgado no final da cúpula, mas Lula decidiu aprovar o texto ao encerrar a sessão plenária de segunda-feira – num momento em que os líderes da França, Alemanha e Estados Unidos não estavam na sala, disseram diplomatas.

“O comunicado foi encerrado pelo presidente Lula. Ficou aquém da posição que poderíamos ter tido”, disse o presidente francês Emmanuel Macron aos repórteres na noite de segunda-feira, acrescentando que o texto teria se beneficiado por ser mais explícito sobre a guerra.

“Isto não muda nada na posição da França: é uma guerra de agressão lançada pela Rússia contra a Ucrânia e a nossa prioridade hoje é obter uma paz duradoura”, acrescentou Macron.

Um responsável europeu qualificou a manobra de Lula de “brutal”, mas o seu país decidiu respeitar a prerrogativa do anfitrião da cimeira de decidir quando emitir a declaração conjunta.

O Brasil apressou a aprovação do comunicado na noite de segunda-feira para evitar o risco de a cúpula terminar sem uma declaração final, embora os europeus pedissem uma linguagem mais forte sobre o papel da Rússia na guerra, disseram à Reuters três diplomatas brasileiros presentes nas negociações.

O Itamaraty não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Os sherpas chegaram a um acordo sobre a declaração final na manhã de domingo, após intensas negociações, mas naquela tarde a França e a Alemanha começaram a pressionar o Brasil para reabrir o texto à luz dos grandes ataques aéreos russos à Ucrânia. O Brasil recusou.

Diplomatas franceses poderiam ter pedido na segunda-feira o adiamento da aprovação do texto até que Macron estivesse na sala, mas não o fizeram, para alívio dos brasileiros.

“Reabrir o texto teria comprometido todo o esforço de uma semana de negociações”, disse uma autoridade brasileira à Reuters.

O líder da Alemanha, Scholz, viu o desacordo sobre o texto do G20 como um sinal dos tempos num mundo em mudança.

“Está a tornar-se claro o quanto as tensões geopolíticas também estão a ter impacto no G20”, disse ele. “O vento que sopra nas relações internacionais está cada vez mais forte.” REUTERS

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