Milhares de pessoas caminham pela 46th Street de Nova York durante o Brazil Day Street Festival em 5 de setembro de 1999 Bernie Nunez/Getty Images Quando você pensa em bairros de imigrantes em Nova York, é fácil pensar em Chinatown e Little Italy. Mas durante as décadas de 1980 e 1990, uma parte do Brasil também floresceu ali, centrada num quarteirão da Rua 46 – ou “Rua 46”, entre a Quinta e a Sexta Avenidas. O local recebeu o apelido — e posteriormente, o nome oficial, colocado em placa pela prefeitura — Pequeno Brasil (Pequeno Brasil, em português). A história da 46th Street começou como um caldeirão econômico e cultural. Com lojas de eletrônicos, joalherias, lojas de discos, restaurantes que servem feijoadas e caipirinhas e até uma agência do Banco do Brasil próxima, o bairro serve de vitrine da cultura brasileira e ponto de encontro de turistas e expatriados. Mas hoje não é tão comum ouvir português brasileiro na rua e sentir cheiro de pão de queijo ou coxinha vindo da cozinha. Assista aos vídeos que estão em alta no G1 Assista aos vídeos que estão em alta no g1 ‘Crise da dívida brasileira sacode um canto de Nova York’ Leia as manchetes dos arquivos do New York Times Fases boas e ruins Em 1984, antes mesmo de a Câmara Municipal batizar oficialmente o bairro de Pequeno Brasil, os primeiros sinais de declínio já eram visíveis. O New York Times publicou uma reportagem intitulada “A crise da dívida latino-americana atinge a ‘rua brasileira’ de Nova York”. O texto observa que as dificuldades na economia do Brasil – inflação acima de 200%, recessão e a maior dívida externa do mundo – são sentidas até mesmo no Pequeno Brasil, onde o tráfego turístico e de negócios brasileiro está diminuindo. Na reportagem, Jaime Felzen, dono da loja de eletrônicos Brasil Mon, disse que, entre 1981 e 1984, suas vendas caíram 90%, o número de funcionários passou de 15 para 5 e quase toda a área de estoque foi convertida em escritório. A placa ‘Little Brazil’ na 46th Street foi erguida depois de 1995. Getty Images O jornal noticiou que, embora os clientes da classe alta ainda visitem a rua, a classe média, que constitui a maioria da clientela, parou de visitar Nova York. “Esta é uma parte de Nova York que depende mais das decisões econômicas tomadas em Brasília do que das decisões vindas de Washington”, disse na época Jota Alves, editor do jornal comunitário The Brasilians, ao NYT. Abrao Glicas, dono da loja de eletrônicos e roupas Bertabrasil Boutique, também lamentou: “Foi uma época que me dá saudades. Só falam português de uma ponta a outra da rua”. As reportagens dos jornais locais também destacam os detalhes que tornam a rua brasileira: “Para matar a saudade, era possível ouvir discos de bossa nova nas lojas de música, comprar a versão em português das Seleções do Reader’s Digest, ver nas vitrines as cores verde e amarela da bandeira brasileira e levar a família para a tradicional feijoada nas tardes de sábado”. Luis Gomes, dono do restaurante Via Brasil, lamentou ao jornal da época: “A rua nunca mais vai voltar a ser o que era”. Mais de 40 anos depois, no final de setembro de 2025, a reportagem da BBC News Brasil conheceu Luis Gomes, que disse algo semelhante enquanto preparava um coquetel no bar da Via Brasil, que dirige desde 1978. Luis Gomes no bar de seu restaurante, Via Brasil Giulia Granchi/BBC “Nenhuma gangue chegava à faculdade durante Ah. Lojas, ônibus turísticos, era uma época completamente diferente”, lembra Luis. “Havia muitas boutiques, clubes brasileiros… Muita coisa mudou desde então. Infelizmente, uma mudança drástica. Não acho que isso vai voltar.” O restaurante Via Brasil é hoje um dos poucos sobreviventes dessa época de ouro. “Ainda mantemos uma boa clientela, mas os anos 90 foram muito mais movimentados”, diz Lewis, nostálgico. Fotos na parede e lembranças de antigos clientes mostram um espaço vibrante, referência para quem quer vivenciar um pedaço do Brasil fora do país. Além do restaurante de Luis, a presença do Brasil ainda permanece em outro restaurante e algumas lojas que resistem à especulação imobiliária e à transformação acelerada da cidade. O boxeador brasileiro Acelino ‘Popó’ Freitas com sua então esposa, Eliana Guimarães, no restaurante Via Brasil em 2002 Getty Images A antropóloga Maxine Margolis, autora do livro Little Brazil, estuda a comunidade brasileira em Nova York desde o início dos anos 1990. Segundo ele, a presença do Brasil na Rua 46 era mais voltada para turistas do que para imigrantes residentes. “Naquela época havia muitas lojas de eletrônicos. Os brasileiros vinham para a 46th Street para comprar televisores e outros produtos, que eram muito mais baratos nos Estados Unidos do que no Brasil. Isso mudou porque muitos desses produtos começaram a ser produzidos no Brasil e não havia necessidade de importá-los. Aos poucos, as lojas fecharam e a presença de brasileiros nas ruas começou a diminuir.” A pesquisa de Margolis também aponta fatores estruturais que contribuem para o desaparecimento do bairro. A construção de grandes edifícios comerciais, hotéis e empreendimentos de luxo aumentou muito os aluguéis e prejudicou as pequenas empresas. Maxine L. Capa do livro de Margolis, publicado em 1993, “Nova York está sempre mudando. Mas houve muitas construções em grande escala que prejudicaram os pequenos negócios, inclusive os brasileiros”, explica a antropóloga. Em seu livro, Margolis trata o Pequeno Brasil como um “ponto de encontro”, mas traça um perfil amplo dos brasileiros que vivem na cidade. Ele descreveu um grupo de imigrantes que não fugiam da pobreza extrema ou da repressão política, mas que “enfrentavam as condições econômicas caóticas do Brasil que dificultavam a manutenção de um padrão de vida de classe média”. As suas narrativas observaram que, apesar da sua educação (alguns incluindo diplomas universitários) e das origens sociais (classe média e média baixa), muitos, com pouco inglês e sem documentos de trabalho, aceitaram empregos pouco qualificados depois de chegarem aos Estados Unidos. Mapa de Caroline Souza, da equipe de jornalismo visual da BBC News Brasil BBC News Brasil/Nascimento ‘Dia do Brasil’: festa de rua Dia do Brasil comemorado em Nova York em 2016 Getty Images Ao lado do movimento diário, o quarteirão da 46th Street foi o berço do maior símbolo do dia comunitário da BBC. A festa, realizada todos os anos no mês de setembro, reuniu milhares de pessoas —imigrantes brasileiros, americanos e turistas ávidos por experimentar a culinária, os produtos e os ritmos nacionais. Ao longo dos anos, grupos como Babado Novo, Calypso e outros artistas participaram de desfiles e feiras de rua. “A festa foi provavelmente a mais importante, não só para a comunidade brasileira, mas também para as colônias americanas e espanholas. Foi maravilhosa”, lembra Gomes. A comemoração completa 38 anos. Segundo o site oficial do evento, “Em 2013, segundo dados do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD), aproximadamente 1,5 milhão de pessoas compareceram ao Dia do Brasil, ocupando uma área de 25 quarteirões ao longo do dia”. Mas em 2025, o Dia do Brasil não aconteceu – devido a “vários obstáculos”, segundo o site. Feiras de rua na ’46th Street’, ou ‘Little Brazil’ JT Milanich/BBC News Brasil Astoria: o outro centro brasileiro de Nova York Mesmo no apogeu da chamada “Rua Brasileira”, muitos comerciantes e trabalhadores que trabalhavam na 46th Street moravam mais longe – em um bairro mais tranquilo e acessível. O custo de vida era bem mais baixo do que em Manhattan, e a área passou a concentrar famílias brasileiras que buscavam aluguel barato e uma vida em bairro próximo de outros imigrantes. “A 46th Street era importante para os turistas, mas acho que era menos importante para os imigrantes que viviam em Nova York”, explica a antropóloga Maxine Margoli. “Se você for ao Astoria hoje, ainda tem muitos brasileiros.” Segundo Margolis, o bairro se destacou justamente por acolher quem se instalou definitivamente. “Tem um grande supermercado brasileiro com todos os tipos de produtos – opções que fazem você se sentir como se estivesse no Brasil. Tem de tudo, desde sabão e detergente até ingredientes para carne e feijoada”, diz. Além disso, segundo o pesquisador, os restaurantes e lanchonetes do Astoria sempre foram mais acessíveis do que os da Rua 46. “Muitos brasileiros achavam os restaurantes da 46th muito caros. No Queens havia comida por quilo – mais fácil e mais acessível.” De acordo com dados do US Census Bureau (American Community Survey, 2020), Astoria tem uma população imigrante estimada em 37%. Hoje, estabelecimentos como o Restaurante Copacabana e o Rio Market Market continuam sendo locais populares — símbolos de como a presença do Brasil está se espalhando para além de Manhattan e se reinventando. Restos Verdes e Amarelos em Manhattan Caminhando pela 46th Street em setembro de 2025, ainda foi possível encontrar resquícios da nostalgia brasileira. Por exemplo, a loja de Búzios não tem placa nem nada que indique sua existência para quem passa no quarteirão. É preciso aproximar-se de um interfone em um prédio estreito para ler o nome da proprietária Marcela Ferreira e tocar para abrir a porta. E mesmo “escondida”, Búzios continua atraindo clientes – tanto fiéis quanto novos. “Nosso espaço é limitado, então procuro colocar um pouco de tudo que o brasileiro mais sente falta: pão de queijo, cream cheese, guaraná, chocolate e brigadeiro. Coisinhas que lembram o Brasil”, diz a proprietária. Segundo ele quem mais compra com certeza são os brasileiros que sentem falta de casa. “Compramos nostalgia. Odeio quando a embalagem muda, parece que não é mais a mesma. As pessoas querem a experiência que tiveram quando eram crianças”, explica. Produtos em exposição na loja de Búzios Giulia Granchi/BBC “Mas também quem já teve parceiro brasileiro, experimentou alguma coisa e quer continuar comendo, tem família que teve filhos aqui e quis compartilhar um pouco de como era a vida no Brasil…” Os biquínis e chinelos Havaianas também fazem sucesso entre os clientes estrangeiros — e até mesmo Wincomics em vez dos livros americanos Dacomics. “Vendo muito para adultos que estão aprendendo português e precisam praticar a leitura em uma linguagem simples”, diz. A história do bairro é marcada por pioneiros que ajudaram a consolidar a presença do Brasil. Segundo Margolis, a inauguração da placa “Little Brazil” na esquina da Quinta Avenida com a Rua 46 foi resultado da ação de um imigrante mineiro que convenceu o prefeito de Nova York a oficializar o reconhecimento. Além disso, a proximidade com o Distrito dos Diamantes fortaleceu o comércio local, atraindo brasileiros envolvidos na venda de pedras preciosas como ametista e água-marinha. “Os brasileiros sempre tentaram se distinguir de outros imigrantes latino-americanos, especialmente dos imigrantes de língua espanhola, que eram frequentemente estereotipados como pobres ou com menor escolaridade. Havia um senso de comunidade e de identidade própria”, disse Margolis.

Source link