
Esta semana, no Conheça os Plantadores de Água, o Jornal Nacional relata iniciativas para restaurar os biomas brasileiros. Nesta quinta-feira (30), você conhece os agricultores e pecuaristas do Cerrado que produzem muito mais que alimentos. Um carinho muito estranho, feito de lâminas e engrenagens, mas é carinho. A agricultura é a antiga relação das pessoas com a terra. Dez mil anos e educação. Uma plantação, por exemplo, é muito diferente. Tanto que o agricultor nem se preocupa com a data da colheita. “Estou tentando mostrar que existe outra possibilidade de deixarmos ao mundo um lugar melhor para nossos netos”, disse Christina Posari Lemos, proprietária da Fazenda Crescent. Essa semente se projeta no tempo? Quem esses produtores estão pensando para a próxima safra? É hora de conhecer os plantadores de água. “Ainda não existe essa palavra, mas já nos consideramos nesta região. Somos produtores de água”, comentou Vitor Luis Barbosa, proprietário da Fazenda Paraíso. Não é chuva, é colheita. A equipe do Journal Nacional esteve na capital mais movimentada do Brasil. Uma árvore para cada cinco habitantes. Nas ruas, a sombra das aroeiras e dos jacarandás alivia o aperto de toda grande cidade. Isso é em Campo Grande. Terra do ipê amarelo, a flor que acontece uma vez por ano e que não precisa de imitação porque não tem igual. O Cerrado brasileiro ocupa pouco mais de 1% da superfície seca do planeta e contém cerca de 5% das espécies animais e vegetais do mundo. Ou seja, este pedacinho de terra é lugar de vida, olho no olho e barulho. Entre moscas e caminhadas, o Cerrado já contava com mais de mil espécies nativas, quando o homem decidiu adotar mais uma: o boi. Só o Mato Grosso do Sul tem mais de 18 milhões de habitantes – mais de seis vezes a população do estado. Dezoito milhões estão com fome e sede. E o Cerrado, tão grande que parecia infinito, deu o primeiro recado: começou a secar. “Há oito anos, nesta altura, nós, como produtores pecuários, estávamos desesperados porque a água era muito escassa”, comentou Vitor. “Passamos aqui por um período crítico, um período caótico. Realmente tem sido muito preocupante aqui”, relata Claudine Pecois, presidente da Associação dos Produtores de Água/APA Guareiroba. A ciência alertou. “É muito importante percebermos que no Brasil, um país onde tivemos muitas chuvas, o que nos levou a uma grande força na produção de alimentos, provavelmente esse tempo já passou. Precisamos repensar o uso racional da água em nosso país e esse trabalho fica para ontem”, disse o cientista e professor norte-americano Paulo Artaxo. Ainda bem que o trabalho já começou aí. Nos arredores de Campo Grande, ontem significava há vários anos. Vitor recebeu de seu pai suas terras e lições. “Não é fácil cuidar da natureza e produzir muito bem ao mesmo tempo. Mas existe um meio-termo. Esse equilíbrio é possível”, ressalta Vitor. Conheça os produtores brasileiros que ‘plantam água’ no Centro-Oeste para proteger a fauna e a flora do Cerrado Jornal Nacional / Reprodução Fazenda Paraíso. Parece mais um paraíso do que uma fazenda. Mas nem sempre foi assim. “Aqui, antigamente, você pode ver que isso é uma clareira aqui no mato, era uma travessia de gado. Antigamente era uma estrada. Para vocês terem uma ideia, passavam carros e tratores”, disse Vitor. A parte mais rica da fazenda quase foi esmagada até a morte. Mas quando eles entram e afastam o gado da fonte, um pequeno brilho começa a emergir do chão. Vitor Luis Barbosa: Está tudo emergindo. Toda essa área que estamos entrando agora é a área da nascente. Pedro Bassan, repórter: Resultado visível, né? Vitor Luís Barbosa: Sim. E olhe o volume de água. Repórter: A ponta do dedo molhada é sinal de vida no Cerrado. Depois de alguns metros, a água começou a fazer esse som triplo. É a nascente do Córrego dos Tocos, que se junta ao Guairoba a poucos quilômetros de distância. Ainda não parece muito, mas nesta região as chuvas estão por toda parte. E quando os sete córregos convergem, aquele fio d’água se torna enorme, capaz de abastecer uma capital: 40% da água de Campo Grande vem da Área de Proteção Ambiental da Guariroba. A Universidade Federal de Mato Grosso do Sul mediu e descobriu que a vazão do reservatório, ou seja, o tamanho dessa cachoeira, aumentou um terço após o trabalho dos plantadores. Esta barragem deve compreender imediatamente a importância do que estão a fazer para imaginar uma terceira menor. “Tem capacidade, já tem água suficiente para abastecer todo Campo Grande. E água de extrema qualidade. Isso não vai acontecer ainda porque não temos infraestrutura para transportar essa água até a cidade”, observou Claudini. Mas, afinal, como é possível toda essa produção na fazenda? A expressão da água de plantio não é uma força. Isto é o que realmente acontece quando a natureza e as pessoas se dão bem. “O plantio de água é um processo de recuperação da vegetação nativa onde restauramos a função do ecossistema que foi degradado. Podemos ver claramente que onde plantamos, onde a vegetação nativa foi restaurada, essa água está retornando aos poucos e às vezes muito rapidamente”, disse Verônica Maioli, Especialista em Conservação – WWF Brasil. As árvores não produzem água, mas impedem que ela desapareça. Funciona assim: quando chove em terrenos erodidos, a enchente é mais rápida e forte. A terra endurecida não consegue absorver água e ainda drena para riachos e rios, causando assoreamento, erosão e seca. Não há água em lugar nenhum enquanto a vegetação recua. Penetra no solo, que fica macio graças às raízes. O que foi absorvido pela terra reaparece nos rios, que evaporam e voltam a chover. É um ciclo que funciona corretamente há milhões de anos – se ninguém o interromper. E olha quem veio ajudar. Na APA Guairoba, os animais do Cerrado estão de volta. Tapir parece estar olhando pelo campo apenas para explicar seu retorno. Só que agora, onde quer que vá, encontra a próxima refeição. Mas e o gado, que eram os senhores da terra? E a produção? Ou seja, quem produz: “Vale a pena. A quantidade de água compensa. A quantidade de água produzida para o nosso consumo e para os animais aumentou enormemente”, comentou Vitor. “No início as pessoas ficaram com medo porque você perde 20 metros de área produtiva para converter em APP para economizar água. Mas quando percebem que a conversão da natureza reflete na boa produtividade da fazenda, no bom desempenho de seus animais, passam a ver a recuperação com outros olhos. A produção está mudando para coexistir com a conservação. A Serra de Maracaju contorna a Fazenda Arara Azul, onde a produção é intensa e elegante. O gado é pastoreado ali ouvindo música clássica. Público muito educado. Ao fundo, próximo aos muros, ergue-se o Rio do Paix. O biólogo Werner Moreno cuida de cada gota desse riozinho. “Quando pensamos no Pantanal, de onde vem essa água? Cachoeira do Rio do Peixe Jornal Nacional/ Reprodução A água traz vida, mas às vezes parece ter vida própria, escolhe seu caminho e nos surpreende. O Rio do Peixe é pouco mais que um riacho. Mas ele escolheu um destino muito grande para ele. Se tiver que descer, faça-o da forma mais impressionante: rolando entre as pedras e caindo a 75 metros de altura. Riachos de água que descem, massas de árvores que sobem, decoram um muro colorido que não nos cansamos de ver. Despedindo-se de um bioma a caminho de outro, as Cataratas do Rio do Paix une duas maravilhas do Brasil: o Cerrado e o Pantanal. De repente: Silêncio. A cachoeira parou. Imagine o choque de quem chegou em outubro de 2024 e encontrou a rocha seca, sem fundo. Foi uma época seca, mas não ociosa. “Já trabalhamos com essas nascentes há algum tempo, então sabemos que os pontos podem ser importantes para essa recuperação. Os pontos que foram bloqueados pela entrada de sedimentos no canal do rio. Então causa bloqueios”, disse Weiner. Após cinco dias de trabalho para reabertura da hidrovia, alguém sentiu uma brisa fria no lago e logo surgiram evidências de que o esforço valeu a pena. Desde então, a cachoeira nunca parou de fluir e os plantadores de água nunca pararam de funcionar. “Vemos que de fato é possível produzir água. Respeitando a natureza, ela cresce”, afirma Christina. Cristina adora brigas, mas não briga. Na fazenda a muvuca é essa mistura de sementes. Grande, pequeno, redondo, plano, escuro, claro, muitas cores. Assim, a floresta ficará mista e colorida. Esta é uma forma de plantar inspirada na natureza. E quem mora na zona rural conhece bem essas leis. Quem semeia boa semente colhe bem. E quem pinta corta o arco-íris. Leia também a série especial do JN que analisa as iniciativas de restauração de biomas no Brasil


















